Tommy: Quando The Who se tornou um musical psicodélico.

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Tommy (1969) foi o quarto álbum do The Who, considerado um dos primeiros Ópera Rock. O Disco conta a história de Tommy, que fica surdo, mudo e cego após ver seu pai, que havia sido dado como morto na guerra, ser morto pelo amante da sua mãe após voltar inesperadamente, assim ambos traumatizando o garoto e falando que ele não deve falar e fingir que não viu e ouviu o acontecimento.

Ken Russell em Tommy (1975), um filme transgressor, onde os temas do disco são expostos em canções e situações que alternam entre o cômico e o perverso. Todas essas situações nunca são expostas em diálogos, mas sim cantadas. Bullying, abuso sexual, drogas, são todos temas vivenciados por Tommy (o vocalista Roger Daltrey encarna o papel), mas também por sua família, além de que sua mãe que não aceita ter um filho PcD (Pessoa com deficiência), mesmo demonstrando afeto.

Tommy em sua infância.

As situações são carnavalescas, em uma cena vemos Tommy e sua mãe em uma igreja, onde Marilyn Monroe é adorada, e no centro vemos uma imagem de gesso onde os fiéis a beijam o pé, como de Cristo. Em outra, acontece uma disputa de Pinball, onde Elton John encarna o adversário de Tommy. Dá pra se notar que o elenco é rico com músicos, mas também há espaço para atores como Oliver Reed e Jack Nicholson.

Sendo um musical sem nenhuma cena de diálogos comuns, os diálogos dos protagonistas acontecem unicamente nas canções, dando um ar burlesco. Além do ótimo trabalho de se adaptar um álbum inteiro para um filme, o próprio uso de som diegético é sensacional. Cenas inteiras são trabalhadas com objetos em cenas se tornando instrumentos da própria música. A música não parece um meio, mas sim a causa daquele universo existir.

O culto a imagem é um dos temas debatidos.

O filme parece emular um grande espetáculo à la Broadway (onde realmente virou, em 1993), pois toda caracterização é teatral. Ken Russell aproveita para brincar com a percepção do público, quebrando limitações visuais do teatro e nos botando em cenas psicodélicas ou caminhando por ambientes gigantescos.  É um filme imensamente bonito e grotesco na mesma medida em que ele brinca com a linguagem.

Tommy apesar de ser um personagem que se encontra em um estado alheio, é um personagem fácil de criar empatia. As pessoas o julgam em sua fé, abusam e se aproveitam de seu estado, e ainda assim ele se mostra um personagem complexo e resiliente. A cena do pinball e a adoração que ele desperta no público criam uma santidade em sua imagem, onde futuramente iremos ver as consequências. Sua família também é complexa, abuso familiar, descaso e amor andam de mãos dadas.

Tommy em um confronto contra o Pinball Wizard.

Tommy é um filme que adapta e traduz muito bem o disco, transformando em uma verdadeira ópera musical sobre a formação de Tommy. O filme também é uma denuncia a temas como bullying, violência sexual, drogas, temas que já se tornavam bem comuns naquela época e principalmente com a juventude pós guerra. Não é difícil imaginar o quanto esse filme deve ter sido uma inspiração para muitos diretores em suas experimentações visuais. É um grande clássico cult que merece ser redescoberto.

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